Tópicos em Português

Saudades

Ainda bem que estou escrevendo este artigo em português, senão teria que achar outro título: o substantivo “saudades” não tem tradução para inglês (nem para nehuma outra língua).

Há um ano atrás estávamos nos despedindo do seu Oscar, um pouco mais de 10 anos depois de termos também nos despedido do meu pai.

Falei à família e aos amigos nas duas ocasiões e um tema foi comum: não falei da partida deles, mas sim dos momentos gostosos que ficaram gravados na memória.

Teve até uma história em comum: meu pai e o seu Oscar trabalhavam em empresas vizinhas nos anos 70 e apesar de não se conhecerem disputavam a um lugarzinho especial para estacionar o carro na rua, perto das fábricas. Mas o curioso foi que só descrobimos isso anos mais tarde quando a Elisama foi na nossa igreja com o famoso VW TL vermelho do seu Oscar e meu pai reconheceu o carro que disputava a vaga com ele.

Aliás, meu pai era muito observador de carros, e talvez tenha inspirado o meu interesse por eles. Lembro de irmos juntos nas ruas onde se concentravam várias lojas de automóveis usados, procurando uma boa oportunidade. Lembro das várias fotos nos álbuns antigos onde ele posava junto de seus bólidos.

Interessante que o gosto por viagens era um outro ponto comum entre os dois: Ambos estavam sempre prontos para pegar uma estrada.

Na minha casa tínhamos o sábado da família quando saíamos para um destino improvisado onde fazíamos um picnic, visitávamos alguns lugares interessantes, e voltávamos no final da tarde (geralmente na volta tínhamos uma pilha de blusas ou qualquer outra coisa que minha mãe colocava no meio do banco traseiro separando a minha área e a da minha irmã para não brigarmos – era o chamado “murinho da vergonha”).

Já depois de casado fiz viagens memoráveis com o seu Oscar também. Aquela pela Rio-Santos em 86 foi particularmente especial. Lembro que quando a estrada ziguezagueava pelas encostas das montanhas, e depois de uma curva, dávamos de cara com uma magnífica vista do mar, o seu Oscar falava lá de trás: “êta marzão besta!” (ainda bem que quase nunca precisava murinho da vergonha para separar o seu Oscar da dona Therezinha).

Para continuar a lista de pontos comuns não posso deixar de listar que ambos eram corintianos e sócios do clube do Corinthians no Parque São Jorge (e particularmente não foram muito bons de bola, mesmo na sua juventude – eu, por exemplo herdei todo o talento esportivo do meu pai).

Já que as memórias estão me trazendo características similares desses dois homens que tiveram tanta influência na minha vida, não posso deixar de lado a seriedade profissional de ambos. Trabalharam duro, muitas vezes com um segundo emprego à noite ou nos finais de semana. Entendi e segui o exemplo.

Saudade é uma palavra especial, mas também dolorida. Palavra gostosa e pesada ao mesmo tempo.

Lembrar tudo isso alegra e machuca.

Então eu vou parar de escrever lembrando do versículo que o seu Oscar escreveu num papelzinho que a Elisma encontrou:

“Não te mandei eu? Sê forte e corajoso, não temas nem te espantes porque o Senhor teu Deus é contigo por onde quer que andares” Josué 1:9

Até breve meus amigos.

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Memórias da Faculdade

Algumas das minhas melhores memórias dos anos de faculdade são as noites que eu passava acordado, tentando terminar projetos que tinham que ser entregues na manhã seguinte. Eu lembro as músicas da Bandeirantes FM e o cheiro do café que eu tomava para ficar acordado. O melhor era quando o projeto era um daqueles desenhos técnicos em papel vegetal tamanho A-zero (CAD ainda não era muito popular naquela época), feitos a tinta nankin.

Porém outra memória que ainda está muito viva para mim é do dia que estávamos na aula de desenho na faculdade, numa sala enorme cheia daquelas pranchetas forradas com plástico verde claro, equipadas com réguas paralelas.

Depois de algumas explicações do professor, nós estávamos todos trabalhando em nossos projetos. Eu, particularmente estava não só trabalhando, mas também conversando com os amigos à minha volta, qundo o professor surgiu por trás da prancheta. Ele era meio baixo, portanto eu só via a metade de cima da sua cabeça, mas ainda lembro a expressão de seus olhos quando ele disse: “Jovem, o senhor fala demais!”

Aquilo me pegou de surpresa, mas não impediu que eu desse uma resposta a qual achei que seria apropriada: “Tem razão. A minha mãe fala a mesma coisa”.

Mas a resposta dele foi muito melhor: “Lembre-se que eu não o amo tanto quanto a sua mãe.”

Num raro momento, eu não tinha o que falar.

 

A verdade é que já não sou mais jovem, e ainda falo demais. Só que agora não é a minha mãe que me alerta para esse fato, é a Liz (ainda bem que ela me ama tanto quanto a minha mãe, e muito mais que aquele professor).

 

Eu me sinto muito culpado quando eu leio o versículo da Bíblia em Tiago 1:19: “Portanto, meus amados irmãos, todo o homem seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar.” (se serve de consolo, eu sou pronto para ouvir e tardio para me irar…).

 

Eu preciso de ajuda! Alguma sugestão? (“Cale a boca” não conta como sugestão, ok?).

 

Muito obrigado.

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Don Quixote de La Mancha

(Esta é a primeira tradução que faço de um de meus “posts” em inglês – vamos ver como fica)

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Há alguns anos atrás eu estive em Stratford, perto de Toronto no Canadá.

Durante o tempo que estive lá tive a oportunidade de ir ao teatro e assistir a peça: “O Homem da Mancha”.

A peça mostra o personagem “Don Quixote de La Mancha”, de Cervantes, interagindo com um bando de ladrões, prostitutas e assassinos em uma improvisada prisão-vila durante a Santa Inquisição espanhola.

Tudo é uma mistura de loucura, idealismo e otimismo.

Entre os personagens está “Aldonza”, conhecida por todos pelo seu passado como prostituta, e tratada tal qual pelos outros prisioneiros.

Exceto Don Quixote, que a chama de “Dulcinéia” e a trata como uma dama, a protege, e demonstra a ela um amor respeitoso, como ela nunca havia experimentado antes.

Surpresa com a atenção inesperada, Dulcinéia resiste a esse amor e constantemente repete que ela não merece isso.

Don Quixote continua persistindo até que chega um ponto que ela se aproxima dele e pergunta: “Olhe para mim! O que você vê?”, ainda tentando convecê-lo que ela não merece tal tratamento.

Depois de fitá-la por alguns segundos ele diz: “Beleza. Perfeição”.

 

Quando eu estava assistindo à peça e ouvi essa expressão pensei: “é exatamente assim que Deus nos vê quando fomos lavados pelo sangue de Jesus”.

A despeito do nosso passado, a despeito dos nossos erros, nós fomos lavados. Justificados.

Por isso Deus vê a perfeição de Jesus em nós, e nos ama profundamente, de uma maneira que nunca experimentamos antes.

Por isso podemos ter um relacionamento com ele, e uma vida vitoriosa, sabendo que somos amados!

 

Romanos 8:37 a 39 me parece ser um bom encerramento para esses pensamentos:

“Mas, em todas estas coisas somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou.
Pois estou convencido de que nem morte nem vida, nem anjos nem demônios, nem o presente nem o futuro, nem quaisquer poderes, nem altura nem profundidade, nem qualquer outra coisa na criação será capaz de nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor.”

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Futebol no asfalto

(Texto que eu escrevi em 2004 para um concurso de contos do jornal O Estado de São Paulo)

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Carrôôô!

Mais uma senha do que um meio de transporte, a palavra é compreendida por todos: o jogo é paralisado onde está e a garotada sai do meio da rua, esperando o carro passar.

Alguns segundos depois tudo recomeça no futebol de todo dia, na cidade que cresceu demais e não deixou espaço para os campinhos.

Nada de sofisticação. Duas pedras aqui e duas lá, uma bola e alguns meninos, metade deles sem camisa. Tudo pronto.

A turma se conhece bem e já sabe quem são os craques e quem é o dono da bola.

Sabe também que se a bola cair no quintal daquela casa amarela, onde mora a dona Gracinha, é melhor alguem logo pular o muro numa operação de resgate, antes que a bola se junte a milhares de outras que, dizem, dona Gracinha tem capturado ao longo dos anos. O bom é que ela se move devagar e tem gatos, ao invés de cachorros.

De qualquer forma a bola não dura muito, porque entre a dona Gracinha, a roda de um carro e o asfalto áspero, a expectativa de vida é de alguns meses. Aí resta esperar o próximo aniversário para alguem aparecer com uma bola nova, branquinha. Ou então jogar com aquela de plástico que não dá para controlar muito bem, mas que na hora do desespero é sempre bem vinda.

Quando as expressões “craques”, “controle de bola” e “asfalto áspero” são colocadas juntas o resultado é um invariável joelho ralado e o sangue escorrendo na canela. Nada que uma boa dose de saliva não cure.

A vizinhança já conhece a rotina do futebol de rua, e tem interpretações variadas sobre ele.

O seu Genaro, sapateiro, que é torcedor do Palmeiras gosta de assistir o jogo da porta da sapataria quando não está muito ocupado, mas prefere mesmo atazanar os garotos corintianos, crescidos nos anos do jejum. Ele tem até um poster colorido do time de 74 na parede.

Os frequentadores do bar, que nesse caso não fica na esquina, não gostam muito do esporte, desde o dia que a bola atingiu a mesinha dobrável montada na calçada, obrigando o campo a se deslocar um pouco, porque com bêbado não se discute.

Tem também o garoto novo, que veio de algum estado do nordeste e obviamente logo ganhou o apelido de baiano.

O fim do jogo é especialmente refrescante quando a dona Fumio, lá da esquina, está lavando a calçada. Calada e com um sorriso tímido ela parece feliz em permitir que os atletas se deliciem com um bom gole de água da mangueira.

A maioria dos outros moradores não tem muito do que reclamar, pois são seus filhos os craques do asfalto, e é melhor tê-los ali do que “sabe lá onde”.

Tudo isso é fato. Detalhes claros registrados na memória por quase trinta anos. Os sons das buzinas, as imagens dos muros carimbados por boladas, e até o cheiro da garoa sobre a rua empoeirada são marcas vivas, que fazem parte do passado, mas que ainda afetam as emoções de hoje.

E como pode ser diferente? O Brasil tem o melhor futebol no asfalto de todo mundo (principalmente melhor que o da Argentina).

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Crepúsculo

(Texto que eu escrevi quando estava no colegial, em 1976. Resisti à tentação de modificar, pois mostra minha visão da velhice quando eu era um adolescente)

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Levanta tarde… Também, não tem quase nada para fazer…

Toma um copo de leite sem açúcar e sai pela rua andando devagar, ajudado pela velha bengala; chegando até aquela pracinha do bairro onde grama já não existe e onde crianças mulatas brincam e brigam.

Quase à hora do almoço levanta-se do banco onde esteve sentado e pensa em voltar por outro caminho, maslogo espanta essa idéia e usa aquela mesma rua que não torna o caminho tão longo.

Almoça um cozido sem sal e deita-se no sofá para descansar até que chegam as crianças, que correm, gritam e brincam, alegrando o velho coração. Sentado no sofá contempla a correria da pirralhada e os estrilos da velha companheira que zela pela louça antiga que há sobre os móveis cobertos de poeira.

Chega a hora do jantar e as crianças já se foram. A comida sem sal, o copo d’água e a companhia da velha é tudo que lhe resta.

Senta-se na sala e conversa, logo que termina o jantar; conversa pouco: palavras balbuciadas, palavras curtas, poucas e roucas palavras.

Liga o televisor para distrair-se enquanto a velha arruma os lençóis da grande cama de casal; o enfado já lhe tome conta.

Levanta-se do sofá com esforço e caminha até o quarto arrastando os pés sobre o assoalho que range. Antes de deitar-se toma um gole da água da moringa que sempre fica no criado-mudo; mudo… infelizmente mudo, se falasse muito teria para contar.

Coloca o pijama e deita-se no mesmo lado de sempre, cobre-se com os já amarelados lençóis; o quarto já mergulhado na escuridão; vira-se na cama… adormece.

Adormece para nunca mais acordar.

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A Minha Parte no Plano

(O texto abaixo foi um sermão que tive a oportunidade de compartilhar com a Igreja Batista Nova Jerusalem na década de 80)

(Na verdade a idéia original desta perspectiva surgiu na década de 70, na classe dos jovens lá em cima no salão do templo velho, quando a Terezinha S. estava dando a aula)

Quando eu leio o episódio da ressurreição de Lázaro no evangelho de João, capítulo 11, versos 1 a 46, encontro uma conhecida história. O texto fala de um milagre, talvez a maior demonstração do poder de Jesus durante seu ministério. O texto mostra a sobre-natural humanidade e divindade daquele que num momento chora, e segundos depois traz um morto de volta a vida.

É uma passagem rica em em mensagens que Jesus transmite a seus discípulos, a Marta, a Maria, e às outras pessoas que estão ali. O texto é profundo e complexo quando mostra implicaçoes políticas do feito, e quando pinta o cenário para a morte e ressurreição do próprio Jesus Cristo. É ainda cheio de amor, ressaltado pela ótica de João, que o reporta.

Mas nós vamos mergulhar nesse texto para procurarmos uma lição diferente para nós hoje.

Se nos determos no instante do milagre em si aprendemos muita coisa. Tentemos imaginar o cenário: uma gruta usada como túmulo, com uma pedra sobre sua entrada. Lá dentro um defunto de quatro dias, que já cheirava mal (a propósito, os judeus criam que a alma deixa o corpo três dias após a morte, o que aumenta o drama aos olhos deles).

Jesus está ali comovido e indignado presenciando a dor causada pela maldição da morte, consequência da desobediência original do homem.

Nesse momento, Jesus ordena que a pedra seja tirada da frente da gruta. Vamos parar o filme nesse ponto: Alguém que tinha poder para ressucitar um defunto de quatro dias mandou que os homens tirassem a pedra? Por que não a fez desaparecer, vaporizar, ser lançada no espaço? Porque aquela parte do plano era deles, eles podiam fazê-la. Jesus nunca teria dito “Pedra, desapareça” para em seguida dizer aos homens que estavam ali “Ressucitem Lázaro”. Tem mais, após o milagre, ele ordena “Desatai-o e deixai-o ir”. Novamente uma parte que eles podiam fazer.

Fica claro aqui que existem duas partes nesse plano: uma dos homens e uma do Senhor. Eu sempre fico imaginando o que teria acontecido se os homens tivessem se recusado a tirar a pedra. Talvez tivessem perdido a benção que eles experimentaram ao seguirem a ordem.

É aí que chega o dilema: quantas vezes na nossa vida nós ignoramos as diretrizes que Deus tem para nossa vida, para talvez perdermos o milagre que Ele tinha reservado para aquele momento. Ou talvez tentamos fazer a parte de Deus, porque nos sentimos auto-suficientes e não precisamos dEle.

Não quero insinuar que seja fácil reconhecer qual é a minha parte e qual é a de Deus. Talvez seja uma das coisa mais difíceis de nossa vida, mas ao mesmo tempo é fundamental. Só uma sintonia perfeita com o nosso Criador vai permitir que possamos enteder Sua vontade, e experimentar os milagres reservados para nós.

Você tem alguma pedra impedindo a ação dEle na sua vida?

(30 anos depois que eu escrevi esse texto, este ainda é um tema com o qual eu me debato constantemente, e tenho que ficar me relembrando de que existem duas partes)

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